Juliana Silveira: “A culpa nasce junto com o bebê”

Mãe de Bento, 5 anos, a atriz fala sobre as preocupações e os desafios de educar o filho nos dias de hoje. Ela também relembra a gestação e o parto e diz: “Minha gravidez foi a melhor do planeta”

Por Conselho de Mãe, por Taynara Prado - atualizada em 16/11/2016 11h35

Com 7 anos, Juliana Silveira se lembra de ir sozinha à padaria na esquina da rua de sua casa a pedido da mãe. A atriz, que mora no Rio de Janeiro, não pode nem sonhar em fazer o mesmo com o filho. “Sinto que as crianças ficam muito presas dentro de casa”, diz, em entrevista à coluna Conselho de Mãe, de Taynara Prado. Casada com o artista plástico João Vergara, ela também conta sobre as dificuldades que enfrentou no pós-parto e diz que nada seria possível sem o apoio do marido. “O puerpério ganha disparado dos momentos mais complicados da maternidade”.

Qual a maior preocupação ou desafio de educar nos dias atuais?
Comparando com a minha infância, o maior desafio, hoje, é a questão da segurança em uma cidade grande. Sinto que as crianças ficam muito presas dentro de casa. Antigamente, era diferente. Com 7 anos, minha mãe me dava dinheiro e eu ia até a esquina, na padaria. Voltamos de uma viagem recente ao sul da Bahia. Lá, eu deixava que ele fosse até o quarto dos amigos sozinho, ia até a recepção pedir um lanche, coisas que aqui no Rio de Janeiro nós não fazemos. A segurança, sem dúvida, é o maior desafio de hoje e as crianças estão muito limitadas em função disso. Meu grande medo, como mãe, é tomar as decisões corretas nesse sentido, para que ele volte em segurança sempre, sabendo o que é certo o que é errado lá fora.

Como é a personalidade do Bento?
Bento é canceriano. Gosta muito da casa dele, é muito certinho, ama a rotina dele, gosta de quase tudo sempre igual. Brinco que ele é um velhinho e sempre protegi muito esse desejo dele. Até os 2 anos, não o tirava da rotina, nem mesmo nas viagens. Repetia os horários do banho, da alimentação, respeitava o tempo dele de ficar em casa, não passeava loucamente, deixava que ele brincasse no hotel... Sempre fiz assim. Agora que ele já é um menino de 5 anos e sinaliza que quer mais independência, estimulo esse lado de se vestir sozinho, tomar banho, arrumar a mochila, escovar os dentes. Ele é calmo, gosta de ver desenho e colorir. E adora videogame!

Sente culpa por ter que trabalhar fora?
A culpa nasce junto com o bebê e a gente precisa administrar esse sentimento para não se torne algo grande e para que ninguém sofra. Eu sentia mais culpa quando ele era bebê. Quando comecei a trabalhar, ele tinha 1 ano e eu ficava mal. Eu tive que viajar uma vez para gravar em Angra dos Reis (RJ) e, por ficar quatro dias longe, eu chorava no camarim, escondida do chefe e da equipe. Sentia muita saudade. Hoje, ainda sinto, mas ele já tem certa independência, uma rotina preenchida com escola, com os amigos e com outros interesses. Ficamos divididas, sim, com a maternidade e o trabalho, mas, aos poucos, as crianças vão adquirindo autonomia, criando a pequena agenda deles e isso dá mais tempo para fazer outras coisas. Tudo vai se encaixando. É importante também eles saberem que as coisas não são fáceis e que os pais se sacrificam para construir e dar para eles o melhor. Graças a Deus, existe toda essa tecnologia digital para nos conectar nesses períodos em que estamos fora. Isso ameniza um pouco a saudade.

O pai do Bento, o João, é artista plástico e você, atriz. Bento já demonstra algum tipo de inclinação artística?
Não dá para fazer uma previsão. O avô e o pai são artistas plásticos. Bento já gosta muito de capoeira, de dançar, de criar histórias e de música. Com certeza, nosso ambiente criativo e lúdico contribui para a educação dele. Em qualquer área que escolha seguir quando crescer, ele levará um pouco dessa bagagem, que é importante para construir uma sensibilidade. Ele é criativo, observador, sensível e extrovertido, gosta de conversar, de ouvir, bater papo. Isso tudo é fruto desse ambiente.

Qual é o seu estilo de maternidade?
Ser mãe é uma face da personalidade que está sempre em desenvolvimento constante, junto com o crescimento do filho. No puerpério, virei uma mãe-leoa. Eu não deixava ninguém dar banho nele ou trocar fralda. Apenas meu marido. Eu não queria ajuda, queria fazer tudo sozinha.  Se eu tiver um segundo filho, vou tentar me permitir descansar entre as mamadas, porque isso pode contribuir com a produção de leite. Eu tinha muita sede de aprender como mãe, queria preencher todas as necessidades dele, não me permiti ter ajuda de uma profissional, de uma babá. Fazendo esse exercício de pensar como me comportei, acho que, além de mãe-leoa, sou uma mãe observadora. Meu desejo é prepará-lo para o mundo.  Estimulo a união familiar e construo uma relação na qual ele possa fazer as coisas dele e voltar para casa, onde existe uma família amorosa.

Você se considera rígida?
Não sou rígida, mas tomo decisões. Ele ganhou um videogame. Estipulei horários, mas percebi que estava deixando o interesse pelos livros de colorir, largou os outros brinquedos, não queria mais sair para brincar com os amigos. Vi que estava perdendo a mão, que ele não estava obedecendo e recolhi o videogame, não deixei mais jogar. Conversei, disse que ele estava muito novo e que terá tempo para jogar videogame. Mostrei que existe uma vida lá fora para correr, tomar sol, brincar, e ele entendeu. Foi até muito maduro para a idade dele e aceitou. Como a resposta dele foi tranquila, senti que tomei a decisão certa. Não sei dizer se isso é rigidez ou não. Tem gente que acha que estou certa; tem gente que acha que eu deveria ter sido mais firme com os horários, mas não estava funcionando.

Quando você precisa dar bronca?
Além do videogame, um problema clássico aqui de casa é o banho. Desde que saiu da barriga, ele não gostava de tomar banho. Ir para o banho sozinho nunca é uma opção dele. Ele não gosta de parar de brincar para tomar banho ou não quer tomar porque está cansado depois da escola. Também fico tentando segurar esta questão de dormir no carro, no trânsito ou à tarde, porque depois não consegue dormir à noite. Outra questão é a comida. Na escola, ele come bem, ganha os prêmios por experimentar legumes, mas, aqui em casa, sempre há um protesto com as verduras. Se deixar, é só arroz, feijão e macarrão. Às vezes, tento negociar de uma forma saudável, às vezes temos que ser mais firmes.

Como é a alimentação do Bento?
Meu marido é magro por genética. Ele pode comer o que quiser. Já eu tomo mais cuidado, até mesmo pelo meu trabalho. Como sempre dei autonomia para ele ser pai da melhor forma possível, sem criticar, acabamos tendo alguns problemas com a questão da alimentação do Bento. A criança é reflexo do pai e da mãe, e nós tentamos comer bem. Ele vê isso no dia a dia: o suco verde, a muçarela de búfala. O pai já apresentou para ele os biscoitos e eu explico que faz mal, mas não dá para pirar, para ser neurótica. Estamos falando de uma criança saudável, que não tem restrição alimentar. Por isso, buscamos um equilíbrio. Nunca dizemos que não pode comer. Deixo tomar um sorvete de casquinha, tento sempre compensar de alguma forma. Mãe vai pela intuição e pelo bom senso. Nada é proibido, tudo é negociado.

Você já declarou, e falou sobre isso em um vídeo que gravou para a campanha “Julgue menos, apoie mais”, da CRESCER, que a escolha do momento de ter um segundo filho é uma decisão da mulher. Se sente cobrada de alguma forma?
Parar para engravidar na minha profissão é algo complicado porque não posso voltar como voltaria em um escritório. Existe uma insegurança. Em um mundo ideal, não existiriam esses questionamentos sobre ganhar dinheiro ou estar fora do mercado, mas há uma série de coisas que precisam ser pensadas. Por amor, teríamos mais filhos com certeza. Temos amor para dar e vender e o Bento pede um irmãozinho. É complicado parar agora, que consegui pegar um ritmo bom de trabalho. Se for rolar, deve ser lá para 2018, com 38 ou 39 anos. Pode ser que eu desista da ideia por uma questão de saúde. Não dá para prever o que vai acontecer. Essa escolha é da mulher, sim. Pelo João, já teríamos tido mais, mas ele me respeita muito e entende todo esse processo. Quando o Bento estava com 1 ou 2 anos as pessoas me cobravam mais, para que eles crescessem juntos e fossem amigos, mas isso não é o bastante. A mãe tem que desejar muito um segundo filho. Não pode ter apenas para dar uma companhia para o irmão.  Se tudo correr bem, eu estiver bem de saúde e estabilizada financeiramente, a chance de ter um segundo é enorme.

Como foi a sua gravidez?
Minha gravidez foi a melhor do planeta. Bento foi muito esperado e desejado por mim e pelo pai. Eu queria muito ser mãe. Quando descobri que estava grávida, foi um dia de glória. Minha vida existe como se fosse um antes e depois da descoberta da gravidez do Bento. Senti muito desejo por coisas cítricas, salivava por um sorvete de limão e uma limonada. Troquei o chocolate por limão - e olha que sou chocólatra!  Sentia muito sono nos três primeiros meses. Eu, que já sou dorminhoca, passei a hibernar naquela fase. Quando passaram esses três primeiros meses, eu me sentia ótima. Nos últimos dois meses, tive bastante azia. Então, dormia sentada para passar a queimação. Eu estava tão feliz, que isso nem me incomodava muito. Devia ser o hormônio da felicidade, porque não ficou na minha memória como um momento complicado. O puerpério ganha disparado dos momentos mais complicados da maternidade.

Bento nasceu em uma cesárea, mas você tentou muito o parto normal. Como foi esse processo?
Eu queria muito o parto normal. Conversei durante toda a gravidez com a minha ginecologista. Cheguei a entrar em trabalho de parto, fui para o hospital, tomei ocitocina sintética e fiquei mais doze horas tentando. Mesmo assim, só tive 4 centímetros de dilatação. A equipe médica achou que o bebê poderia entrar em sofrimento e, por essa razão, optamos pela cesárea. Uma coisa que a gente aprende é que não controla muito bem as coisas. Não dá para controlar tudo e, graças a Deus, existe a cesárea para ajudar a mulher nesses momentos. É um pouco frustrante, mas passou logo quando eu vi o Bento saudável e feliz no meu colo. Pedi que, quando o retirassem da barriga, o colocassem no meu peito para mamar. Não foi um procedimento agressivo. Muitas mulheres relatam isso. Me senti respeitada e bem cuidada naquele momento pela equipe médica que escolhi. Meus pais estavam lá fora, meu marido, do lado, minha cunhada filmando. Foi uma decisão de grupo, tomada na hora. Fui para a cesárea ciente de que não dava mesmo, que eu tinha tentado. Não me arrependo de nada. Bento veio ao mundo como ele tinha que vir.

Em algum momento você sentiu pressionada na escolha do tipo de parto?
Minha opção sempre foi entrar em trabalho de parto. Eu quis esperar o movimento da natureza, do bebê e do corpo de dizer que ele estava pronto para nascer. Achei que fosse ter parto natural e eu tentei, mesmo não tendo dilatação. Passei pela experiência de um parto induzido, em que a dor é muito maior. Sofri um pouco. Ouço relatos de mães que tiveram um ritmo normal de parto e que não tiveram tanta dor, mas, como eu queria muito, minha médica induziu. É bacana esperar o trabalho de parto acontecer. Tudo é válido quanto é feito de forma consciente. A mulher precisa se empoderar e tomar decisões sem ser influenciada por terceiros.

E na amamentação, foi tudo como você esperava?
Assim que o Bento saiu da barriga, o colocaram para mamar no meu peito. Então, já tivemos esse contato, ele mamou o colostro. Acho que isso facilitou muito o processo da amamentação porque dizem que, quando você faz uma cesárea, às vezes por uma questão hormonal, o leite demora mais para descer e eu não tive essa dificuldade inicial. Meu leite desceu 48 horas depois do nascimento do Bento. Meu bico não rachou, nunca senti dor, nem nada desconfortável. Pelo contrário. O que aconteceu foi que o fato de eu não conseguir descansar, dormir poucas horas por dia, me deixava exausta. Esse cansaço somado ao emocional, com alguns problemas pessoais que me aborreceram, colaborou para o leite ir secando a partir do terceiro mês. Apesar de Bento mamar bem, precisei entrar com o complemento no quarto mês. Entre o quinto e o sexto mês, ele foi perdendo o interesse pelo peito e eu parei de amamentar.

Como foi o seu pós-parto?
Foi uma loucura! Aquela montanha russa de emoções. Quando eu recebi alta do hospital, minha médica foi muito querida e delicada. Ela falou que nos primeiros 15 dias eu poderia ficar um pouco triste, por conta de uma oscilação de humor chamada baby blues. Passados os exatos quinze dias em casa, o Bento começou a ter cólicas e começava a chorar no fim de tarde. Ele seguia gritando até umas 20h. Eu chorava junto, vivendo intensamente o puerpério. Eu o carregava no colo o tempo todo e tentava acalmá-lo. Quem me ajudou muito foi o meu marido. Ele chegava do trabalho e também tentava acalmar o Bento. Ele foi fundamental no primeiro ano. Depois de três, quatro meses, ele começou a me conduzir aos poucos para voltar a ser a mulher dele, voltar para a vida, sair, ir ao cinema, namorar, jantar e conversar um com o outro. Ele sempre foi um pai muito presente e me ajudou no revezamento de trocar fralda, colocar para arrotar, mamar. Consegui passar pelo pós-parto sem precisar de intervenção de um profissional, mas isso aconteceu também pela parceria do meu marido e por ele ter sido um pai intenso. Quando você sabe que o puerpério é físico, é hormônio, parece que fica mais fácil de conduzir essa fase e entender que tudo na maternidade uma hora passa. Quando a cólica dele passou, consegui entender que eu era uma boa mãe e que eu estava conseguindo atender às demandas dele. Vi no rostinho dele que estava feliz e cheio de saúde. Essas inseguranças existem: “será que eu sou uma boa mãe?”, “Será que consigo dar conta?”, “Será que estou fazendo meu filho feliz?”. Eram muitas questões na chegada de um serzinho que você ama loucamente. Ao mesmo tempo, você também está aprendendo o que é bom para ele.

Seu corpo é instrumento de trabalho. Sentiu-se pressionada de alguma forma para voltar a forma antiga depois do parto?
Esta pressão existe com a mulher que trabalha com imagem, mas a gente também se cobra muito. Temos que nos respeitar mais. Eu não pensei nisso nos primeiros três meses, estava muito focada no Bento. Engordei 13 kg e, amamentando, perdi esse peso. No entanto, quando parei de amamentar, continuei comendo muito, naquele mesmo ritmo de gestação, e acabei engordando mais 5 kg. Brinco que engordei de pura safadeza mesmo, de falta de limite. Quando voltei a trabalhar, meu corpo não estava naquele padrão de televisão e o Bento já tinha 1 ano. Precisei me movimentar a partir da prova de figurino. Não dava bola para o que os outros pensavam, meu gênio forte serviu para isso. Soube lidar bem com essa fase. É uma falta de respeito com a mulher fazer dieta com dez dias de puerpério.

Que conselho da sua mãe que você segue com o Bento?
Minha mãe ri muito no papel de avó, porque fui uma criança muito questionadora, muito desafiadora. Eu queria experimentar, testar meus pais. E Bento também tem essas características. Ela sempre disse que tudo passa e que não devemos levar nada muito a sério.

Que conselho você daria para outras mães?
Observar e ouvir a criança. Para se relacionar, é preciso tempo de qualidade. Ter tempo com a criança para fazer atividades que ela goste: colorir, passear, ir à praia. Durante a atividade, procurar ouvir o que a criança tem para falar. É na hora da brincadeira que a criança consegue se comunicar de uma forma sincera e abrir o coração. Reservar um tempo do seu dia para se relacionar mais profundamente com seus filhos é fundamental. Tento fazer isso com o Bento.